Tempo: o que aprendemos com ele?

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Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo de Nova Friburgo

Os Tempos Litúrgicos estão fortemente inseridos no tempo cronológico para que, celebrando os Mistérios de Cristo, possamos nos santificar, melhorar nosso ser, nutrir e aumentar a nossa fé, dar sentido novo à nossa existência terrena, produzir bons frutos e crescer no Amor, sempre à luz de Cristo, nosso Salvador e Senhor do tempo e da história. O dramático e triste tempo da pandemia, coincidiu com Tempos Litúrgicos de abundantes Graças, de conversão, penitência, dor, vitória, alegria, Ressurreição, esperança e vida nova, com os quais estamos conseguindo enfrentar de modo mais sereno esse difícil tempo, com a consciência de que “nada poderá nos separar do Amor de Deus e que “tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”.

No dia 26 de fevereiro iniciamos o Tempo da Quaresma com a Campanha da Fraternidade 2020 que apresentou o tema da vida, como “dom e compromisso”, e o lema “viu, sentiu compaixão e cuidou”. Vinte dias após, em 17 de março, no meio do itinerário quaresmal, iniciamos, por conta da pandemia, o tempo de quarentena e isolamento social, sem participação presencial na Santa Missa. Celebramos com dor e esperança a Semana Santa e a Páscoa do Senhor, também em quarentena. Hoje, estamos encerrando o Tempo Pascal com a Solenidade de Pentecostes, ainda em isolamento e distanciamento social. Portanto, metade da Quaresma, Semana Santa e Tempo Pascal sem poder participar presencialmente da Santa Missa, visitar, abraçar, conviver, trabalhar… Amanhã, voltaremos ao Tempo Comum, com esperança certamente renovada e fortalecida, não obstante o cansaço e as incertezas. Embora não tenhamos passado pelo Tempo Litúrgico do Advento, esse período de pandemia foi certamente inundado pelo sentido profundo da espera vigilante e contributiva, associada à certeza do advento (chegada) de um novo tempo, que está sendo gestado no Útero de Deus.

Durante esse período de quase 80 dias, o que vivenciamos? Medo, insegurança, incertezas, ansiedade, preocupação? Aceitação, esperança, coragem, fé, amor, autoconhecimento, resiliência, salutar convivência familiar e consigo mesmo? Desemprego, redução salarial, crise financeira, falta de recursos? Luto, dor, tristeza, indignação?

 Infelizmente, nesse período, quase 30 mil pessoas já morreram no Brasil, vítimas da Covid- 19. Há doentes que aguardam atendimento digno, doentes internados, hospitais no limite, promessas não cumpridas, desprezo e descaso de Autoridades que deveriam cuidar da vida e garantir acesso à saúde para todos. Quantas crises geradas e ou evitáveis, quantas tensões inúteis, gritaria, violência verbal e digital, ódio, intolerância, desrespeito, corrupção, crise política e desamor? Deixar de chorar os mortos e de lutar pela vida, em tempo de pandemia, é desprezo que fere a alma. É quase o mesmo que adentrar em um funeral apenas para gerar conflito ao invés de consolar, propor e ajudar. Não é o lugar, nem o momento! Vivenciar o luto, com respeito e solidariedade, especialmente pelas Autoridades, é condição fundamental para adequada retomada progressiva das atividades diárias. Sem o substrato humano e humanizante, todo projeto está fadado ao insucesso! É hora de “focar”, todos e todas, na dor e na vida! Precisamos, como os Apóstolos e Maria, estarmos “todos reunidos no mesmo lugar” (At 2,1). Precisamos estar todos unidos na

 mesma pauta, intenção e direção! Deixemos as diferenças justas e democráticas de lado e busquemos conjugar os esforços para ver, sentir compaixão e cuidar da vida. Haverá muito tempo para outras discussões civilizadas, sadias e necessárias. É hora da sinergia dialógica, fruto de um “consenso mínimo” que garanta o indispensável para defender e cuidar da vida. O que está em nossa pauta e agenda? Quais os principais e reais problemas que flagelam nosso povo e país? A fé cristã deve incidir diretamente na vida e pautar prioridades coerentes com os ensinamentos de Cristo. O Mandamento do Amor, por conta da fé, deve estar acima de tudo,

até mesmo de nossas convicções e liberdade de expressão. Sabemos que o direito e a defesa da vida são anteriores em relação ao direito de liberdade. Justifica-se esta afirmação pelo fato de que, para ser livre, é preciso estar vivo e, por isso, a vida é condição indispensável para o exercício da liberdade responsável. A vida sempre em primeiríssimo lugar!

Urge reaprender a conviver com as diferenças e naturais divergências de ideias e opiniões. Reaprender a debater ideias sem ofender pessoas. Deus condena o pecado e não o pecador. Precisamos condenar o mal, não as pessoas. “Ouvistes o que foi dito: amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44). O que pensa diferente de mim, não é meu inimigo e, mesmo se o fosse, não poderia ser odiado, se queremos seguir Jesus. Se o ódio e julgamentos são desprezíveis em situações normais, quanto mais o são em situação de pandemia, dor e morte!

“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, lealdade, mansidão, domínio próprio. Se vivemos pelo Espírito, procedamos também segundo o Espírito,corretamente” (Gl 5,22-23). Não podemos concordar com divisões dentro e fora da Igreja, unificada e conduzida pelo Espírito Santo que opera também dentro e fora da Igreja. “O amor

haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre seus filhos” (Dos Sermões de um Autor africano anônimo, do séc. VI).

Sobre a defesa da vida, acolhida como dom e compromisso, como não recordar com gratidão sincera os profissionais da saúde, os trabalhadores dos serviços essenciais, os voluntários de diversas instituições, projetos e iniciativas religiosas e civis que incansavelmente não deixaram de visitar e socorrer os mais vulneráveis, pobres, necessitados e população em situação de rua? Como não recordar e agradecer as doações feitas por pessoas,

grupos, empresas e instituições para o enfrentamento da pandemia? Como não reconhecer os esforços do Estado, Poder Público e Autoridades, embora ainda insuficientes, para salvar vidas, distribuir recursos e salvar empresas e empregos? Como não recordar e agradecer ao Bom Deus a cura de milhares de infectados pela Covid-19? Enfim, no retorno ao Tempo Comum, que tem a cor verde, sendo um tempo da esperança, como não encorajar a todos e todas a manter a esperança invencível, mesmo diante do cenário incerto? É um Tempo para frutificar a vida e os dons recebidos, em vista do bem comum: “produzir frutos no Amor para a vida do mundo” (OT, n.16).

Quantas experiências, sentimentos e fatos nesse dramático tempo? O que aprendemos e desaprendemos? Em que melhoramos e pioramos? O que perdemos e ganhamos? Qual a nossa avaliação desse tempo cronológico, vivido, é claro, à luz da fé em Cristo? Não se trata de um tempo para se esquecer, mas para evoluir e nos humanizar ainda mais. O que é mais difícil, vencer um vírus ou modificar a maneira de pensar e de agir? Converter-nos o  não mudar? O que, por meio de mim e de nós, viralizou nesse tempo? Amor ou ódio, proximidade ou distanciamento, entendimento ou confusão, fé ou descrença, compaixão ou indiferença, esperança ou pessimismo, verdade ou desinformação, babel ou Pentecostes?

O Espírito Santo que nos foi dado, habita em nós. Portanto, somos habitação do Amor. Estamos capacitados para perseverar no Amor, mesmo num cenário adverso e dramático. Revestidos do Alto, podemos passar do momento babel para o momento Pentecostes. Eis um nobre propósito pessoal e coletivo: buscar o diálogo, o entendimento e a aproximação, em

vista da emergencial opção primeira que é salvar vidas e vencer a pandemia. Qual a minha e nossa opção: babel ou Pentecostes? À luz da fé cristã a resposta é clara. Deixar-nos guiar pelo Espírito Santo e viver segundo o Espírito é o mesmo que Amar e fazer a Vontade de Deus e o bem, sempre, sobretudo em situações adversas. Por feliz providência encerramos, neste ano, o Tempo Pascal com a festa da Visitação de Maria. Ela foi apressadamente visitar sua prima Isabel, idosa e grávida. Ela nos visita! Maria está atenta às nossas dores e necessidades. Ela pede a seu Filho por nós! É hora de imitar a nossa Mãe Maior e nos dirigirmos apressadamente para Pentecostes, deixando de lado as “babéis”, internas e externas, criadas ou persistentes. Essa é a nossa única opção como cristãos e membros da família humana. A linguagem do Amor é a única capaz de produzir entendimento e unidade na diversidade. “Nossa única possibilidade de sobrevivência humana está depositada no preceito cristão da caridade” (G.Vattimo), no Mandamento do Amor. Dirigir-nos apressadamente para fazer o bem; esperar paciente e prudentemente o novo normal; fazer o bem e evitar o mal; voltar ao litúrgico Tempo Comum, desejando viver o tempo de modo comum e novo. Vamos em frente, com esperança renovada. Vem Espirito Criador, nos recriar e renovar a face da terra. Renova-nos Senhor, para que renovados, renovemos o mundo e nosso amado Brasil. Rezemos: “Iluminai todos os seres humanos com a luz do vosso Espírito, e afastai para longe as trevas do nosso tempo, para que o ódio se transforme em amor, o sofrimento em alegria e a guerra em paz” (Prece, I Vésperas de Pentecostes). Vem Espírito Santo vem, vem iluminar! Vem nos recordar o essencial e ensinar o que ainda falta para sermos melhores, mais humanos e conforme ao querer de Deus. Vem nos recriar, para frutificar e ser sinal de Vossa Luz. Amém! Vem Maria vem, vem nos ajudar! Vem nos visitar!

Com o meu abraço fraterno, proximidade, gratidão e benção.

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