Santíssima Trindade

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Dom Luiz Ricci
Bispo de Nova Friburgo

Inicio minha meditação, recordando com sentimento de pesar, os mais de 35 mil mortos pela Covid-19, trazendo-os para o Altar do Senhor, juntamente com suas famílias enlutadas. Estamos celebrando esta Solenidade da Santíssima Trindade, em profunda comunhão solidária e empática com todo sofrimento humano. Rezamos, incessantemente, pelos doentes, profissionais e trabalhadores da saúde, governantes, pesquisadores, pessoas vulneráveis, pobres e necessitadas. Sem deixar de recordar as vítimas da violência, preconceito, desigualdades e injustiças, bem como de seus familiares. Tempo de dor e de teimosa esperança. Uma dor que é acompanhada de indignação, porque muitas dessas mortes certamente poderiam ter sido evitadas, se tivéssemos nos preparado melhor para essa pandemia e se colocássemos o foco naquilo que realmente importa: a vida. “A Glória de Deus é a vida do homem” (S. Irineu). Portanto, experimentamos nesses dias, muita dor, mas também muita indignação. Muito atual e necessária é a oração de Moisés, na Primeira Leitura, na qual ele pede pelo povo pecador, inserindo-se também como pecador e membro do povo. Rezemos e gritemos com Moisés: “Senhor, Senhor! Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel. Se é verdade que gozo de teu favor, peço-te, caminha conosco; embora este seja um povo de cabeça dura, perdoa nossas culpas e nossos pecados e acolhe-nos como propriedade tua’”.  E como pedimos diariamente: “Vinde ó Deus em nosso auxílio e socorrei-nos sem demora”.  E ainda: “Tende misericórdia de nós e do mundo inteiro”.

A Santíssima Trindade é Mistério de Amor e Comunhão. Perfeita Comunidade de Amor e referência para a nossa vivência cristã, eclesial e social.  Deus Uno e Trino. Um só Deus em três Pessoas. Três Pessoas e uma única natureza e substância. Uma indivisa unidade.

No princípio está a comunhão dos Três, não a solidão do Um. Deus é Trindade! Deus não é solidão. Por essa razão, nossa fé é eclesial e comunitária. Somos da família de Deus!

Quando falamos Deus, devemos entender a Santíssima Trindade, sempre juntos e em perfeita comunhão. Estão sempre entrelaçadas no inter-relacionamento eterno que existe entre as Três Divinas Pessoas. Pessoa, em linguagem trinitária, significa aquilo que é distinto em cada uma das Pessoas e existe simultaneamente em eterna comunhão com as outras duas. As Três Pessoas estão sempre inter-relacionadas e em eterna comunhão, na mesma e igual natureza. Deus é uma única natureza em três pessoas. A natureza responde pela unidade na Trindade. A Pessoa garante a Trindade na Unidade. O Pai gera o Filho e o mesmo Pai, junto com o Filho, expira o Espírito Santo.

Assim ensina Santo Atanásio: “Não devemos perder de vista a tradição, a doutrina e a fé da Igreja católica, tal como o Senhor ensinou, tal como os apóstolos pregaram e os Santos Padres transmitiram. Ora, a nossa fé é esta: cremos na Trindade santa e perfeita, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo; nela não há mistura alguma de elemento estranho; não se compõe de Criador e criatura; mas toda ela é potência e força operativa; uma só é a sua natureza, uma só é a sua eficiência e ação. O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo; e deste modo, se afirma a unidade da Santíssima Trindade. Por isso, proclama-se na Igreja um só Deus, que reina sobre tudo, age em tudo e permanece em todas as coisas (cf. Ef 4,6). Reina sobre tudo como Pai, princípio e origem; age em tudo, isto é, por meio do Filho; e permanece em todas as coisas no Espírito Santo. Com efeito, toda a graça que nos é dada, em nome da Santíssima Trindade, vem do Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. Assim como toda a graça nos vem do Pai por meio do Filho, assim também não podemos receber nenhuma graça senão no Espírito Santo. Realmente, participantes do Espírito Santo, possui¬nos o amor do Pai, a graça do Filho e a comunhão do mesmo Espírito (Santo Atanásio, séc. IV).

A Santíssima Trindade é Mistério Inefável de Amor.

Mistério: o que não pode ser totalmente compreendido e apreendido. Apenas parcialmente. Nossa razão é limitada.

Inefável: que não se pode descrever em razão de sua natureza, força, beleza. Algo indivisível e indescritível, que causa alegria e busca constante.

Mistério Inefável de Amor: Deus Uno e Trino: O Pai é o que ama; o Filho é o amado; o Espírito Santo é o amor. Por essa razão, a saudação litúrgica é sempre Trinitária, como ouvimos na Segunda Leitura de hoje: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”.

A Santíssima Trindade é Amor. São Bernardo assim se expressa: “Na Santíssimo Trindade, o que é que conserva aquela suprema e inefável unidade, senão o Amor? Este amor constitui a Trindade na Unidade e unifica as Três Pessoas. Amor cria amor! Esta é a lei eterna e universal, lei que cria tudo e tudo governa”.

Emergem nas leituras de hoje dois temas fundamentais e conexos: o amor e a misericórdia. Apresentamos, no início, a oração de Moisés. No Evangelho, temos a expressão máxima do Amor do Pai que envia o Seu Filho para nos salvar: “Deus amou tanto o mundo, que deu o Seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nEle crer, mas tenha a vida eterna. De fato, Deus não enviou o Seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”. Vejam, queridos irmãos e irmãs, celebrar a Santíssima Trindade é celebrar o Amor de Deus; Amor encarnado, transformador e salvador.

Outros temas que colhemos da Solenidade de hoje, relacionados ao Amor: Comunhão; Unidade; Hospitalidade; Participação, Comprometimento, Silêncio, Contemplação; Desejo de adentrar no Mistério: que cada um ocupe o seu lugar à mesa da Trindade; Acolhida do Mistério e vivência cotidiana do mesmo: assumir um modelo de vida pautado na mensagem da Trindade.

Voltemos à busca de compreensão maior do Mistério da Trindade Santa, através da arte, como canta Oswaldo Montenegro: “Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba. E que ninguém a tente complicar, porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer”. O ícone de Andrei Rublev, pintor Russo do século XV, presente aqui em nossa capela, favorece grandemente uma melhor compreensão do Mistério da Trindade. Para tanto vou me servir de uma explicação bastante didática e profunda do Pe. Adroaldo Palaoro, SJ.

Vamos ao seu texto:

“A festa da Trindade nos mobiliza para uma nova maneira de viver e de nos relacionar com o Deus Comunhão de Pessoas. A Trindade “desvela” a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor. Diante da presença e da ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e morrem as especulações. Só nos restam o silêncio, a adoração e a contemplação. Para facilitar tal atitude, vamos ativar nossos sentidos interiores, para que se deixem impactar pelo Icone de Rublev.

A Trindade não é fácil de ser representada. Aqui, o artista representou-a na figura de três anjos peregrinos, assentados à mesa de Abraão. O que vemos neste ícone? Três anjos, reconhecidos por suas asas, estão assentados em torno de uma mesa.

Trata-se de uma representação do relato da hospitalidade de Abraão, que se encontra em Gênesis 18, quando o Senhor apareceu ao patriarca na planície de Mambré, sob a forma de três jovens. Abraão os convidou a descansar e lhes ofereceu uma refeição. A tradição patrística viu nesses visitantes uma figura das Três Pessoas divinas.

Num primeiro olhar, a divindade aparece revelando-se como uma grande luz que atrai e purifica.  O ícone nos remete mais além do visível, para a beleza das realidades divinas, que representa e transmite; a razão emudece, o coração admira.

Observemos, em primeiro lugar, o ritmo ou movimento circular que parece invadir todos os elementos do ícone, convidando-nos a entrar no mistério de Deus. O movimento que, partindo do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito, é um movimento de amor sem fim. Aqui, o ícone deixa transparecer o amor que une as três Pessoas divinas. Trindade é mistério de comunhão. É uma comunidade perfeita.

O ícone, através da reciprocidade dos olhares, evoca o eterno movimento de amor que une as três Pessoas divinas. Isso é sugerido também, pelo movimento circular do rosto inclinado dos 3 anjos, eternamente jovens, sentados à mesa do universo, em torno ao alimento divino. Fundidos num êxtase, que fala de unidade e de harmonia, os três rostos já dizem tudo.

Há um movimento que vai da esquerda à direita: o personagem da esquerda indica ser o Pai; o do centro, o Filho; e o da direita, o Espírito Santo. As figuras do centro e da direita olham com rosto respeitoso e humilde para a figura da esquerda, que se mantém mais erguida que as outras duas, posto que o Pai é origem e princípio de tudo. Os três, com efeito, têm a mesma atitude de abertura, de respeito, de súplica e de invocação. Deles emana um mistério de eternidade, de amor, de quietude, de paz, de serenidade.

Esse movimento se manifesta igualmente ao fundo do quadro. A árvore se inclina para a esquerda, como se fosse submetida ao sopro de um vento forte. Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo, é doar-se. Esse ritmo exprime a circulação e a comunhão da mesma Vida Divina entre as Três Pessoas.

Mas a Trindade não se fecha em si mesma. O movimento expansivo expressa adoção, efusão, dom, generosidade e graça, que admite, convida o ser humano ao círculo divino. Tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro D’Aquele que vem. Curvando a árvore, o movimento circular da vida divina atinge a natureza. O mundo todo constitui, de certo modo, a periferia; as Três Pessoas divinas permanecem no centro. Fixemo-nos, agora, nos traços das Três Pessoas. Elas não têm idade e, no entanto, transmitem uma impressão de juventude. Rublev soube expressar de uma maneira única a eterna juventude e a eterna beleza das Três Pessoas.

Cada um dos três anjos leva nas mãos um cajado alongado e muito fino. É que cada pessoa divina é um viajante, um peregrino. O quadro ressalta a participação de toda a Santíssima Trindade no mistério da salvação. Os três cajados constituem uma declaração e uma promessa. Eles declaram que os três já vieram fazer morada na humanidade. Eles prometem que os três continuam, através da presença, a conduzir tudo para a plenitude e redenção do ser humano.

O artista, com sua obra, não pretendia sugerir pensamentos, mas uma oração. A perspectiva do ícone é orante, pois nos predispõe para “entrar” no mistério de Deus. O ícone da Trindade de Rublev nos recorda que não se trata de entender, ou de pensar e estudar o Mistério da Santa Trindade. O decisivo é viver o Mistério a partir da adoração e da partilha fraterna. É Deus quem toma a iniciativa de se aproximar dos seres humanos. Como foram até Abraão, a Trindade quer se aproximar também de cada um de nós. Dentro de nós habitam um Abraão e uma Sara. Que a contemplação deste quadro nos coloque em contato mais profundo com as Três pessoas divinas, para podermos repetir, prostrados, as palavras de Abraão aos divinos visitantes na planície de Mambré:“Meu Senhor, se mereci teu favor, peço-te, não prossigas viagem sem parar junto a mim, teu servo”.

E se acolhermos as Três pessoas de todo o coração, poderemos, como Abraão, receber de sua boca a certeza de que essa experiência abençoada, longe de ser um episódio isolado, nos será concedida de novo: “passarei de novo pela tua casa”. Só assim sentiremos Vida brotar em nossas vidas, como irrompeu no seio de Sara. Não mais seremos velhos, estéreis e infecundos. A fé faz rejuvenescer. Que a contemplação do belo faça brotar em nós a imagem de Deus, que é Pai-Filho-Espírito. Amém!” (Pe. Adroaldo Palaoro, SJ).

Para finalizar, pedimos constantemente que o Senhor fique sempre conosco, como pediram Abraão e os discípulos de Emaús. Deus permanece em nós e nós, permanecendo na Trindade, podemos florescer e frutificar. Pratiquemos, apesar de nossos limites, as mensagens e ensinamentos da Santíssima Trindade, buscando o Amor, a unidade, a respeitosa convivência e o desejo de construir um mundo mais circular e urgentemente, menos desigual. A Trindade Santa, Perfeita Comunidade, é o Caminho para tornar a comunidade humana mais humana, solidária, fraterna e justa. Toda vida é sagrada e inviolável! A Igreja nos ensina e nos convida a amar e cuidar de todo homem e do homem todo. Vamos em frente, com a presença constante da Santíssima Trindade, defendendo a vida, como dom e compromisso, enquanto podemos e conseguimos respirar. Se da contemplação orante desse Mistério de Amor emerge um silêncio reverencial e agradecido, certamente também um silêncio eloquente e divino que ordena a todos e todas: “Nós somos um”! Por isso, busquem a união no respeito e no diálogo. E clama:  mais amor, mais fé, mais esperança, mais misericórdia, mais vida, mais comunhão, mais respeito à dignidade humana, mais atitudes concretas em favor da vida e muita paz, filha da justiça e do perdão. Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo!

 

 

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