“O Senhor fez em mim maravilhas!” Gratidão sempre!

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Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo de Nova Friburgo 

Saudações: Dom José Francisco e Dom Alano, Padres, Diáconos, Seminaristas, Consagrados e Consagradas, Familiares e Amigos, Autoridades e Governantes, irmãos e irmãs das várias Denominações Religiosas.

Estimado Povo de Deus da querida Arquidiocese de Niterói.

Irmãos e irmãs em Cristo Jesus que nos acompanham pelas redes sociais e que fazem parte da minha vida e história nessa querida Arquidiocese de Niterói

Saudação especial à Diocese de Nova Friburgo, na pessoa de Dom Paulo de Conto, nosso estimado Administrador Apostólico.

Celebramos hoje a Solenidade da Natividade de São João Batista: Padroeiro da Arquidiocese de Niterói. A alegria que marca o nascimento de João Batista é expressão de gratidão ao Pai pela Salvação que contou com a preciosa colaboração de João Batista. Também motivo para agradecermos ao Criador o dom da nossa vida e a alegria do nosso nascimento.

É imensa a manifestação divina nos fatos ligados ao nascimento de João Batista a quem foi confiada a tarefa de preparar os caminhos do Senhor, chamando o povo à conversão e acolhida do Messias Jesus. Por essa razão, diante de tantos sinais, o povo perguntou: “o que será que esse menino vai ser?” João Batista veio dar testemunho da Luz e preparar para o Senhor um povo bem-disposto a recebê-lo. São Paulo nos ensina que “nenhum de nós vive para si” (Rm 14,7). Como João Batista, também devemos viver para o Senhor! Aprendemos com João que precisamos levar as pessoas a Cristo e levar Cristo às pessoas. A Mão do Senhor estava com João Batista e está conosco também.

Na Primeira Leitura, é apresentada a Missão do Servo do Senhor, preparado e chamado desde o ventre materno, antes mesmo do nascimento. Um texto que se aplica a João Batista, que nasceu e foi enviado para recuperar, reunir, restaurar, reconduzir e ser um sinal da salvação de Deus para toda a humanidade.

João Batista colaborou grandemente na obra da salvação prometida pelo Pai e realizada por Jesus.  Por isso, na Segunda Leitura, ouvimos que “conforme prometera, da descendência de Davi, Deus fez surgir para Israel um Salvador, que é Jesus. Antes que ele chegasse, João pregou um batismo de conversão para todo o povo de Israel. Estando para terminar sua missão, João declarou: ‘Eu não sou aquele que pensais que eu seja! Mas vede: depois de mim vem aquele, do qual nem mereço desamarrar as sandálias’”.

Aqui emergem duas fundamentais virtudes cristãs: humildade e serviço.  Nossa vida cristã deve ser um serviço humilde ao Reino de Deus. Extremamente significativo é o que nos ensina João Batista: “é necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30). Na escola do Mestre Jesus sobe-se, descendo. Na medida em que Cristo cresce em nós, nós também crescemos como humanos e cristãos. Quanto maior for a presunção, o orgulho, a arrogância, a vaidade e o desejo de poder, tanto menor será o amor e, consequentemente, o testemunho de vida cristã.

João veio como a “Voz que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (Mc 1,3). João é a Voz, Cristo é a Palavra, como nos ensina Santo Agostinho. João assumiu a profecia de  Isaías: Grita uma voz: “Preparai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estrada de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas” (Is 40,3-5).

Todos nós recebemos de Deus uma missão. Não estamos aqui por acaso. Qual o propósito da minha existência? Qual a vontade de Deus para mim? Aprendi a querer o que Deus quer? Sinto-me um precursor, alguém que prepara o caminho e vem antes? Sou um precursor de um novo tempo e de uma realidade mais humana? O que tenho feito para colaborar com Jesus? Somos precursores de sua Segunda Vinda? Como Ele irá nos encontrar, na hora de nossa morte ou na Segunda Vinda?

São Bernardo nos ensina que existe e conhecemos uma “tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta, não. Na vinda intermediária o Senhor vem, espiritualmente, manifestando o poder de sua graça; esta vinda intermediária é, portanto, como um caminho, que conduz da primeira à última; na primeira, Cristo foi nossa redenção; na última, aparecerá como nossa vida; na vinda intermediária, o Senhor é nosso repouso e consolação”. Portanto, se estamos situados na vinda intermediária, aguardando o Senhor que veio, vem e virá novamente, podemos dizer que também somos precursores do Senhor, estamos neste mundo para continuar a Missão que Jesus mesmo nos confiou. Somos precursores Dele, enviados por Ele, trabalhadores em sua Vinha, para dilatar o seu Reino de Amor, Justiça e Paz. Como precursores da Segunda Vinda, precisamos assumir a urgente profecia de Isaías: “Preparai no deserto o caminho do Senhor. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas”.  Portanto, temos um longo caminho e uma grande missão a cumprir, começando por nós.

Continua São Bernardo: “Guarda, pois, a palavra de Deus, porque são felizes os que a guardam; guarda-a de tal modo que ela entre no mais íntimo de tua alma e penetre em todos os teus sentimentos e costumes”. Para tanto, precisamos ouvir e praticar a Palavra de Deus. Por isso, urge fazer silêncio. Emudecer faz bem! Como nos ensinou Santo Antônio: “Cessem os discursos e falem as obras”. A mudez de Zacarias termina após o cumprimento da Promessa de Deus. Precisamos reaprender a calar e a falar na hora certa, para a maior Glória de Deus, como o fez Zacarias após o parto. “Há tempo para falar e tempo para se calar”.

Se Zacarias ficou mudo porque duvidou, nós, que acreditamos, não temos o direito de gritar o ódio, o desrespeito e as ofensas. Precisamos emudecer o ódio e gritar o amor! Hoje, mais do que antes, precisamos de prudência, sabedoria e discernimento para buscar a verdade das coisas e dos acontecimentos. A profecia exige denúncia, anúncio e vivência. Não podemos nos calar diante dos males evitáveis e da injustiça que tornam a vida precária, dolorosa e vulnerada, expostas à morte evitável e precoce. Somos, pela fé em Cristo, profetas do Senhor, como o foi João Batista: “e tu menino, serás profeta do Altíssimo, preparando os seus caminhos”. Dessa forma poderemos “servir ao Senhor em santidade e justiça, enquanto perdurarem nossos dias”.

Portanto, somos precursores da Segunda Vinda… E assim, “acorremos com nossas boas obras” ao encontro do Senhor que vem, veio e virá novamente, experimentando concretamente a presença do Ressuscitado no bem que realizamos por Amor e com Amor,  durante  esse período de “vinda intermediária”. Jesus nos pede para sermos “servos fiéis e prudentes”, fundamentados na Palavra de Jesus, que diz: “feliz aquele servo que o Senhor, ao chegar, encontrar agindo assim” (Mt 24,46) e acordados e vigilantes, segundo o evangelho de Lc 12,37.

João significa: Deus é favorável. O Senhor concede Graça. João Batista foi capacitado para o cumprimento da vontade do Pai e soube corresponder à ação do Espírito Santo, sendo um testemunho de fidelidade e coragem, padecendo o martírio por conta da verdade. Portanto, pelo Batismo, somos enviados para cumprir, com fidelidade e coragem, as tarefas que nos são confiadas por Deus.  Deus é favorável e estamos sob a proteção do Senhor. Ele nos dá a missão e a Graça necessária para bem cumpri-la, sendo precursores de uma nova realidade, mais humana e cristã, mais justa e fraterna.

Agradecimento

Estamos também celebrando a Ação de Graças ao Bom Deus pela minha presença e ministério episcopal aqui, na estimada Arquidiocese de Niterói.

A vida é feita de “Encontros e despedidas”: por essa razão, gratidão sempre!

Como diz a canção: “Todos os dias é um vai e vem. A vida se repete na estação. Tem gente que chega pra ficar. Tem gente que vai pra nunca mais. Tem gente que vem e quer voltar. Tem gente que vai e quer ficar. Tem gente que veio só olhar. Tem gente a sorrir e a chorar” (Música “Encontros e despedidas”).

Penso que essa belíssima letra musical retrata um pouco o sentimento que estamos experimentando, neste dramático período. “Despedir” e assumir uma nova missão em tempo de pandemia, sofrimento e distanciamento social não é tarefa fácil, por isso rezamos com fé e esperança: “vinde ó Deus em nosso auxílio e socorrei-nos sem demora”. A despedida é mais dolorosa sem o abraço! Como disse a jovem Thamyres: “Bispo, como é que o senhor é transferido durante a pandemia e vai embora, sem que possamos abraçá-lo?” Por conta da pandemia, a Ação de Graças será solitária, porém solidária. A solidariedade une as pessoas no bem e no amor. Portanto, se não é possível o abraço presencial, estamos irmanados na comunhão eclesial e no Amor de Cristo que nos une, reúne e nos mantém unidos.

Nesta Missa de Ação de Graças, não gostaria “de falar das coisas que aprendi nos discos”, citando Elis Regina, também nos livros, nos estudos, nas teorias… mas sim do que aprendi com vocês, queridos irmãos e irmãs da estimada Arquidiocese de Niterói. Afinal, como disse no dia da minha apresentação, vim como aprendiz…

Continuo com Elis: “Quero lhes contar como eu vivi

E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar.

Eu sei que o amor é uma coisa boa.

Mas também sei que qualquer canto

é menor do que a vida

de qualquer pessoa”.

Durante esses quase três anos, vivenciamos uma história de comunhão eclesial e de serviço, pelo respeito e defesa da vida. Diante do único absoluto que é Deus, tudo se torna pequeno, menos a vida humana, obra prima do Criador. Todo ser humano possui dignidade, independentemente da situação social, moral, econômica e existencial. A Igreja nos ensina a cuidar de todo homem e do homem todo. A vida em primeiro lugar! Cuidar da vida exige conexão com a realidade e sofrimento das pessoas. “O outro que sofre nos pertence”, como nos ensinou o saudoso São João Paulo II. Também nos ensina o Papa Francisco que a “realidade é mais importante do que a ideia. Esse critério está ligado à encarnação da Palavra e ao seu cumprimento e nos impele a pôr em prática a Palavra, a realizar obras de justiça e caridade, nas quais se torne fecunda esta Palavra” (EG, n.231-233). Portanto, não podemos nos distanciar da realidade concreta e muito menos deixar de ver, sentir compaixão e cuidar de todos, especialmente dos pobres e vulneráveis, os menos protegidos em todas as sociedades. Precisamos da sabedoria do Alto para compreender a realidade complexa e dramática em que vivemos e que está além do alcance do olhar humano, para ter discernimento prudente e sábio, nas palavras utilizadas e ações a realizar.

Precisamos da sabedoria divina para saber que, na travessia da existência, estamos constantemente como aprendizes, e “na vida somos eternos amadores, pois vivemos pouco para sermos mais do que isso” (C. Chaplin). A consciência de que somos incompletos e o sincero desejo de completude na Plenitude de Cristo nos permite rezar, com o Salmista: “Completai em mim a obra começada; ó Senhor, vossa bondade é para sempre! Eu vos peço: não deixeis inacabada esta obra que fizeram vossas mãos” (Sl 138,8). Precisamos permitir que Deus continue sua obra para ser o que podemos e devemos ser: melhores e santos.

Na noite de 31 de dezembro do ano passado, enquanto caminhávamos da sacristia para a entrada desta Catedral, para celebrar a Missa de Maria Mãe de Deus e do Ano Novo, Dom Alano me disse: Deus hoje me oferece uma folha em branco, para que eu apenas assine e permita que Ele preencha segundo a Sua Vontade. Trata-se de um ato de extrema confiança em Deus e de uma breve e substancial mensagem para o início do novo ano. Fiquei com a fala de meu irmão, Arcebispo Emérito, no coração. E foi bem assim! Quando tudo parecia escrito no que se refere à minha permanência como Bispo Auxiliar de Niterói, diante de um dramático cenário de pandemia e incertezas, “de repente, não mais que de repente”, recebo uma comunicação do Núncio Apostólico, me informando que o estimado Papa Francisco havia me nomeado Bispo Diocesano de Nova Friburgo. Revivi a cena e os sentimentos de três anos atrás, quando fui nomeado Bispo Auxiliar de Niterói. Confesso que não esperava uma transferência antes dos próximos três anos. Mas aconteceu!

No dia do anúncio de minha nomeação para a Diocese de Nova Friburgo, Dom José Francisco, embora também surpreso e triste com a minha saída, me encorajou com o seguinte texto: “Nunca desesperar da Misericórdia de Deus. Significa: ‘estou com você nessa situação sem saída. Eu sou a saída. Eu lhe mostrarei a saída. Minha Misericórdia o criou e o está guiando por todas as situações, racionais e irracionais, de sua vida. Se esta situação lhe parece desesperada, é porque você a isola do Meu grande plano de salvação. Minha misericórdia é minha eterna escolha de você como co-herdeiro de Meu Filho. Como ousa desconfiar de Minha escolha, de Minha preferência inabalável por você? Eu terei misericórdia de quem Eu terei misericórdia. Entendido?’” (Dom Bernardo Bonowitz, OCSO).

Nesta Missa de Ação de Graças, recordo-lhes, com humildade e para avaliação, o que foi dito por mim, na Missa de Apresentação no dia 05 de agosto de 2017: “Renovo hoje o meu sincero desejo de servir à Igreja de Cristo, que está em Niterói, como aprendiz e construtor de pontes. Estou no meio de vocês como mais um colaborador. Desejo ser mais um operário nesta profícua história, pautada pela fé em Cristo, Bom Pastor. Rezem para que não falte em mim a solicitude de pastor para com o rebanho. Estou no meio de vocês para vivenciar a comunhão eclesial, presbiteral, episcopal e laical. Eis-me aqui! Estou feliz por estar aqui, especialmente por ter sido nomeado para uma realidade totalmente nova para mim, desconhecida e desafiadora. Chego entre vocês de modo livre, desarmado e disposto a crescer e a santificar-me, no exercício do ministério episcopal. Para tanto, quero poder contar com a ajuda e orações de todos. Resolvi querer o que Deus quer para mim”.

O que dizer após quase três anos de feliz convivência, depois de uma repentina transferência? Apenas: GRATIDÃO! GRATIDÃO! GRATIDÃO! O que deixei de fazer e o não bem feito é culpa minha e peço-lhes perdão. Já o bem que eu possa ter feito, credito tudo a Deus e a vocês, irmãos e irmãs, que me ajudaram com orações, proximidade, presença, disponibilidade, testemunho de vida, santidade e alegria contagiante. Foi um tempo vivido com intensidade e amor. A partida é ocasião para recordar, agradecer e pedir perdão. Recordar as maravilhas que o Bom Deus fez em nós e por meio de nós: “O Senhor fez em mim maravilhas”; agradecer a bondade e misericórdia de Deus; pedir perdão pelos erros, fragilidades e limites. Tenho consciência de minha condição de “vaso de barro”, que carrega um grande tesouro, para que todos reconheçam que todo bem vem de Deus e não de mim (cf. 2 Cor 4,7).

“Na parede da memória, essa lembrança é” o mosaico que guardarei com gratidão, construído por várias mãos. Pela Graça de Deus e colaboração de todos e todas – Dom José Fancisco, Dom Alano, Sacerdotes, Diáconos, Consagrados(as), Seminaristas, Leigos(as), Lideranças, Pastorais, Comunidades, Movimentos e Serviços Eclesiais, Voluntários, Poder Público e Líderes Religiosos, penso ter cumprido, ao menos em parte, o humilde desejo externado naquela manhã de sábado. Agora é hora de partir! Gratidão a todos e todas, por tudo e por tanto! O aprendizado aqui foi intenso. Levarei no coração essa riquíssima e primeira experiência episcopal. Afinal, “o primeiro amor não se esquece”, sempre tendo Jesus como O “ Primeiro Amor”, é claro.

Quero agradecer as incontáveis manifestações de amor e afeto que recebi na querida Arquidiocese de Niterói. Impossibilitado de relatar os fatos e gestos, eternizados no tempo e no coração, penso ser mais oportuno dizer apenas: Gratidão. Sigamos nas estradas da vida, com motivação, humildade, coragem e esperança, tendo Cristo como companheiro de caminhada a quem pedimos sempre: “fica conosco Senhor”!

Estou certo de que vocês continuarão rezando por mim e me acompanhando de vários modos, especialmente na transmissão pelas redes sociais de minha posse canônica, como Bispo de Nova Friburgo, no próximo dia 4 de julho, às 10h. Peço-lhes que rezem constantemente, na seguinte intenção: Que o Senhor da Messe envie, o quanto antes, um Bispo Auxiliar para a nossa Arquidiocese de Niterói. Na pessoa do amigo e irmão Dom José Francisco, que me acolheu e sempre me acompanhou com solicitude, cordialidade, respeito e testemunho de vida e oração, agradeço ao Clero e ao Povo de Deus desta estimada Arquidiocese de Niterói.  Recordemos sempre o que nos ensina o nosso Padroeiro, hoje celebrado: “é necessário que Ele cresça e eu diminua”. Unidos no Amor de Cristo e missão eclesial, recebam o meu abraço virtual e fraterno, proximidade, orações, gratidão e bênção. Concluo com a Oração do Abandono de Charles de Foucauld:

“Meu Pai, a vós me abandono:

fazei de mim o que quiserdes!

O que de mim fizerdes, eu vos agradeço.

Porque é para mim uma necessidade de amor,

dar-me, entregar-me

em vossas mãos sem medida,

com infinita confiança, porque sois meu Pai”. Amém.

 

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