Gratidão no final do outono!

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Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Eleito de Nova Friburgo

 

Meus queridos irmãos e irmãs,

Enviei a vocês, na noite de ontem, o convite digital para a minha posse canônica na Diocese de Nova Friburgo. Recebi centenas de mensagens com inúmeras manifestações de amizade, carinho, afeto, proximidade e, principalmente, o compromisso de rezar por mim e pela minha nova missão. O Amor de Cristo e a Cristo nos uniu! Como não tenho condições de responder, mas certamente de rezar por todos e todas, envio-lhes, como sinal de gratidão e proximidade, a síntese de um texto que publiquei no início desta semana. Gratidão sempre! Sigamos unidos nas orações, amizade e comunhão eclesial.

Estamos no final do outono, que teve início em 20 de março e terminará no  próximo sábado. O outono é um período de transição e situa-se entre o verão e o inverno, com pouca chuva, temperatura mais baixa, folhas que caem e colorido diferenciado. A pandemia da Covid-19 atravessou todo o nosso período outonal, causando milhares de mortes, dor, luto, sofrimento, preocupação, incertezas, medo…Bastante significativo é poder celebrar, amanhã, penúltimo dia do outono, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, fechando essa bela e triste estação com a certeza do Amor de Jesus por nós. Trata-se do mesmo Amor que nos acompanhou nesse dramático período e nos acompanhará até o fim, seja qual for a situação pessoal, social e global. Como é bom sentirmo-nos abrigados no Sagrado e “Sangrado” Coração de Jesus. Coração aberto que a todos acolhe. Coração compassivo que nos atrai (cf. Jo 12,32), que acalma e que tem poder de fazer o nosso coração cada vez ais semelhante ao Dele. Coração que pode transformar o nosso coração, tantas vezes etrificado, em coração de carne (cf. Ez 36,26), mais humano, misericordioso e colhedor. Precisamos estar vigilantes, sobretudo em situação adversa, para não rrefecer o nosso coração, como nos alertou Jesus: “A iniquidade (maldade) se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará. Quem, porém, perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,12-13). Aprendamos com Jesus que é manso e humilde de coração! Só assim encontraremos a verdadeira paz e repouso (cf. Mt 11,29). Na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus somos vivamente convidados a ezar pela santificação do clero: bispos, padres e diáconos. Reze pelos sacerdotes  falecidos, doentes, idosos e por aqueles que passam por momentos difíceis e de sofrimento. Agradeça a Deus o bispo, o pároco, o vigário e o diácono que você tem. Rezem por nós, para que sejamos melhores, santos, mais conformes ao Coração de Jesus Bom Pastor e, assim, colaborar na santificação dos irmãos e irmãs, por meio do nosso serviço e testemunho de vida. Rezem, também, pelo nosso querido Papa Francisco que pede sempre nossas orações. Gratidão aos nossos sacerdotes! Gratidão também é poder celebrar o Imaculado Coração de Maria, no último dia do outono e o primeiro do inverno, no sábado, dia 20. Quantos sinais do Amor de Deus e de sua Presença-Presente para encerrar uma estação e prosseguir com teimosa esperança nas outras, na alegre e difícil peregrinação temporal rumo à Casa do Pai.

Sempre utilizamos a expressão “coração de mãe” para se referir ao amor materno e à bondade das pessoas. Nosso Deus tem Coração! Nossa Mãe Maior tem um Coração Imaculado, que não conheceu o pecado e o mal. Por isso, além de nos abrigarmos e

“sossegar” nosso ser no Colo de Maria, queremos pedir ao Bom Deus, por intercessão dela, que o nosso Coração seja purificado, com a eliminação das obstruções do desamor e sentimentos negativos que maculam o nosso coração, feito para amar, servir e fazer o bem: “e Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Ter um “coração de mãe” é um imperativo para todo o ser humano. Na confiança filial e na prática do amor podemos rezar com o Salmista: “Fiz calar e sossegar a minha alma; ela está em grande paz dentro de mim, como a criança bem tranquila, amamentada no regaço acolhedor de sua mãe” (Sl 130,2).

As constantes imagens de dor, morte e sepultamentos que traspassam a alma, deveriam mobilizar em nós um maior desejo de afirmar a vida e de lutar para que todos tenham vida e vida com dignidade, em abundância (cf. Jo 10,10). A dor produz compaixão, solidariedade e indignação ética. A Igreja nos ensina e nos convida a amar e cuidar de “todo homem e do homem todo”, defendendo a vida, como dom e compromisso. “O outro que sofre nos pertence” (S. João Paulo II). Em tempos de dor e morte, precisamos cultivar a teimosa esperança. Não obstante tanta dor e incertezas, acompanhadas de um desconforto oriundo do nosso “conforto” e situação “privilegiada”, quando comparada à realidade de tantos irmãos e irmãs, pois “o custo da desigualdade são os sofrimentos individuais e a infelicidade coletiva” (C. Volpato), o Criador nos presenteou durante o outono com momentos que favoreceram a contemplação e aliviaram um pouco a dor dos corações compassíveis e empáticos.

O pôr do sol é belo justamente por carregar um pouco de tristeza. Trata-se da “elegante melancolia do crepúsculo” (C. Chaplin). E uma tristeza que tem potencialidade de se transformar em beleza, aurora e luz. Como não recordar os esplêndidos crepúsculos captados, não por acaso, pela nossa visão e acolhidos com gratidão outonal ao Criador. Como não pedir com insistência renovada, diante de tanta beleza, como o fizeram os discípulos de Emaús naquele entardecer pascal: “Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”? De fato, no outono, os dias ficam mais curtos e o anoitecer chega mais cedo. Algumas noites da existência são mais escuras e difíceis, mesmo quando iluminadas pela fé pascal e pela irmã lua. Contudo, emerge a certeza: “E a luz brilha nas trevas e as trevas não a dominaram” (Jo 1,5). É humano e compreensível o “cansaço” que experimentamos nesse dramático momento e em tantos outros: “sabemos que toda a criação, até o presente, está gemendo como que em dores de parto. E não somente ela, mas também nós” (Rm 8,22-23). Por essa razão, como é bom ouvir de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso” (Mt 11,28).

No mês passado, uma sábia e silenciosa senhora foi visitar sua amiga numa clínica, e, do lado de fora, distante alguns metros, após uma troca amorosa de olhares, lhe disse com ternura e em alto e bom tom: “minha amiga, fique bem aí, mais segura, porque aqui fora o mundo está muito estranho”. Tempos difíceis! Coragem! Que venham os ipês, na estação do inverno! Que possamos florescer e frutificar,  mesmo no inverno, que acolheremos apenas como estação, evitando teimosamente de sermos por ele acolhidos e dominados. Será que o inverno iminente será capaz de resfriar apenas os ânimos exaltados, jamais o coração? Seria possível transformar o inverno-estação e o “inverno” que insiste habitar em nós, em tempo de frutos e flores? Recordemos que os ipês florescem no inverno! Não é possível antecipar a primavera, mas plausível transformar os “invernos” em primavera do novo ser humano. Não haverá novo normal adequado sem um novo humano! Humanizar o humano!

O inverno pode ser fecundo, belo e transformador! Urge arrefecer as emoções e atitudes negativas para brotar amor e pão! As folhas caem no outono, mas a vida permanece; nos sentimos desnudos, embora com máscara; desprotegidos pelas incertezas, embora com

teimosa esperança; desconfortáveis pelo conforto;  incompletos, buscando a verdadeira completude; vivos, naquele que Vive para sempre! Que belo outono e dolorosa realidade! “Em tudo somos atribulados, mas não abatidos; postos em apuros, mas não desesperançados” (2 Cor 4,8). “Bendito seja Deus que nos consola em toda a nossa tribulação para que possamos consolar os que se acham em alguma tribulação” (2 Cor 1,4). Portanto, com Santo Agostinho queremos iniciar a nova estação rezando: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu, fora. Estavas comigo e eu não contigo. Chamaste, clamaste e rompeste minha surdez, brilhaste, resplandeceste e afugentaste minha cegueira. Exalaste perfume e respirei, agora anseio por ti. Provei-te, e tenho fome e sede. Tocaste-me e ardi por tua paz” (Santo Agostinho). A foto abaixo, capturada por mim, no final deste verão, pode servir como ilustração para esta reflexão. Vamos em frente, no olhar e respiro da fé. Florescer e frutificar no inverno é preciso e possível! Deus os abençoe! Com gratidão, orações e proximidade fraterna.

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