Cardeal Sales e as vocações sacerdotais

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Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

         Neste dia 09 de julho comemoramos o 8º ano de falecimento do Eminentíssimo Senhor Cardeal Eugenio Araujo Salles. Iremos celebrar nesse dia, às 12hs, na Cripta da Catedral Metropolitana a Santa Missa em sufrágio de sua boníssima alma. Ao mesmo tempo lançaremos o projeto da Associação Fundo Cardeal Sales para promover a ajuda nas despesas dos nossos estudantes de pós-graduação. É uma homenagem especial neste ano em que estamos comemorando o centenário de nascimento de nosso antecessor que tanto trabalhou por nossa Arquidiocese. Ele completa 100 anos (8/11/20) junto com o Papa João Paulo II (18/5/20) que são contemporâneos. Poderemos acompanhar pela Rádio Catedral e WebTV Redentor e pelas mídias sociais do Sistema de Comunicação da Arquidiocese (SCA) esta missa de gratidão ao grande pastor que foi Dom Eugenio. Foi um grande incentivador das vocações sacerdotais em seu longo, profícuo e abençoado governo pastoral em nossa amada Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro.

         No dia 02 de julho de 1980, em nossa Catedral Metropolitana, o Papa São João Paulo II manifestou todo o seu carinho para o com o saudoso Cardeal Sales e por toda a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Vale a pena, na íntegra, relembrar a proximidade do Papa Woytila com o Cardeal Sales e a Igreja do Rio: “Neste meu peregrinar pelo Brasil, já tive a alegria de ver muito do vosso belo País, da bondade, nobres sentimentos e espírito de fé da sua gente. E aqui estou vendo a mesma coisa. Deus seja louvado! Agradeço ao meu querido Irmão o Senhor Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales e, por ele, a todos, esta boa acolhida, que me é dispensada agora e que tenho tido aqui na Arquidiocese do Rio de Janeiro: da comissão de preparativos às entidades e pessoas todas que intervieram. Com o Senhor Cardeal Arcebispo, quero saudar os seus Bispos auxiliares e todos os Sacerdotes diocesanos e religiosos, que compõem o Presbitério, e de modo particular e íntimo compartilham com o Pastor diocesano as responsabilidades de mensageiros e distribuidores dos bens da salvação. Olhai: como “sal da terra” e “luz do mundo” vós procurais edificar aqui a Igreja, com bem elaborados Planos de Pastoral. Sede sempre presença visível do sagrado nesta grande metrópole, vivendo e agindo cada um de vós como na verdade é: um “alter Christus” que passa fazendo o bem. Igualmente saúdo as Religiosas aqui presentes e representadas. Sei que estais bem organizadas, aqui no Rio, e conheço o vosso apoio ao trabalho pastoral, para além do sempre essencial apodo da vossa vide de oração: Vivei a vossa consagração com generoso empenho, adesão e disponibilidade ao Senhor; vivei-a em Igreja e ao serviço da missão da Igreja. Fortes na fé, sede alegres na esperança! E a todos os fiéis diocesanos – dos assessores do Senhor Cardeal Arcebispo, aos funcionários da Diocese e aos que se dedicam a atividades de caridade e assistência, passando pelos seminaristas, pais e mães de família, jovens e crianças, até “aos mais pequeninos”, os que sofrem no corpo ou na alma – a todos, enfim, sem querer esquecer ninguém, chegue a minha cordial saudação e a certeza da minha estima em Cristo. A todos deixo esta lembrança do encontro com o Papa: “Tudo o que fizerdes, fazei-o de todo o coração, como quem o fez pelo Senhor”. E, em todas as coisas e sempre, “servi ao Senhor Jesus Cristo” (Col. 3, 23-24).    Com a minha Bênção Apostólica!”

(www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/july.index.2.html, último acesso no dia 03 de julho de 2020)

         Estamos comemorando 40 anos da Primeira Visita Apostólica de São João Paulo II ao Brasil e, também, ao Rio de Janeiro. Sempre acompanhado do então Arcebispo Metropolitano, o saudoso Cardeal Sales, São João Paulo II, do alto do Corcovado, assim se manifestou sobre o monumento que visitava como peregrino: “Cristo! De que outro lugar, no Brasil e fora dele, fazer ecoar este Nome – o único que nos pode salvar (cf. At 4,12) – e que tem um particular direito de cidadania na história do homem e da humanidade (Redemptor Hominis, n. 10) melhor do que do alto deste imenso penhasco feito altar, entre maravilhas naturais, criadas por Ele, o Verbo de Deus (cf. Jo 1,3), bem no coração do Rio de Janeiro. Aqui a estátua que há precisamente 50 anos todo um Povo quis erguer no cimo do pedestal natural se fez a um tempo símbolo, apelo e convite.

Redentor! Os braços abertos, abraçam a cidade aos seus pés! Feita de luz e cor e, ao mesmo tempo, de sombras e escuridão, a cidade é vida e alegria, mas é também uma teia de aflições e sofrimentos, de violência e desamor, de ódio, de mal e de pecado. Radiosa à luz do sol, silhueta luminosa suspensa no ar à noite, o Redentor, em pregação muda, mas eloquente, aqui continua a proclamar que “Deus é luz”(1Jo 1,7), “é amor” (1Jo 1,7). Um amor maior do que o pecado, do que a fraqueza e do que a “caducidade do que foi criado” (cf. Rm 8, 20), mais forte do que a morte (Redemptor Hominis, n. 9)” http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/july/documents/hf_jp-ii_spe_19800702_corcovado-brasile.html,  último acesso em 03 de julho de 2020.)

Num momento em que as favelas estavam sendo ameaçadas no Rio de Janeiro o Cardeal Eugênio Araujo Sales houve por bem colocar-se ao lado dos moradores da Favela do Vidigal que estavam sendo ameaçados de serem deslocados por causa da especulação imobiliária. Levando o Papa São João Paulo II ao Vidigal, assim disse o Papa Woytila: “A Igreja em todo o mundo quer ser a Igreja dos pobres. A Igreja em terras brasileiras quer também ser a Igreja dos pobres – isto é, quer extrair toda a verdade contida nas bem-aventuranças de Cristo e sobretudo nesta primeira – “bem-aventurados os pobres em espírito…”. Quer ensinar esta verdade e quer pô-la em prática, assim como Jesus veio fazer e ensinar.  A Igreja deseja, pois, extrair do ensinamento das oito bem-aventuranças tudo aquilo que nelas se refere a cada homem: àquele que é pobre, que vive na miséria, àquele que vive em abundância e bem-estar e, enfim, àquele que possui excessivamente e que tem de sobra. A mesma verdade da primeira bem-aventurança refere-se a cada um de modo diverso.  Aos pobres – àqueles que vivem na miséria – ela diz que estão particularmente próximos de Deus e de Seu reino. Mas, ao mesmo tempo, diz que não lhes é permitido – como não é permitido a ninguém – reduzirem-se arbitrariamente à miséria a si próprios e às suas famílias: é necessário fazer tudo aquilo que é lícito para assegurar a si e aos seus tudo aquilo que é necessário à vida e à manutenção. Na pobreza é necessário conservar sobretudo a dignidade humana, e aquela magnanimidade, aquela abertura do coração para com os outros, a disponibilidade pela qual se distinguem exatamente os pobres – os pobres em espírito.  Àqueles que vivem na abundância ou ao menos em um relativo bem-estar, para a qual têm o necessário (ainda que talvez não lhes sobre grande coisa!), a Igreja, que quer ser a Igreja dos pobres, diz: Usufruí os frutos do vosso trabalho e de uma lícita industriosidade, mas, em nome das palavras de Cristo, em nome da fraternidade inumana e da solidariedade social, não vos fecheis em vós mesmos! Pensai nos mais pobres! Pensai naqueles que não têm o suficiente, que vivem na miséria crônica, que sofrem fome! E partilhai com eles! Partilhai de modo programático e sistemático. A abundância material não vos prive dos frutos espirituais do Sermão da Montanha, não vos separe das bem-aventuranças dos pobres em espírito.” (http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/july/documents/hf_jp-ii_spe_19800702_vidigal-brasile.html, último acesso em 3 de julho de 2020)

A proximidade do Cardeal Arcebispo Dom Eugenio Sales e do Papa São João Paulo II foi comovente como vemos na alocução do Papa: “Desejei visitar em vocês do Vidigal, todos os favelados onde quer que se encontrem, no dileto Brasil, que agora percorro em peregrinação apostólica. Ao vir aqui, interessei-me, como Pai e Pastor, preocupado pela sorte de filhos multo amados, e perguntei sobre todos e sobretudo aqui nesta favela. Falaram-me de vocês e como no meio de carências, lutas e agruras, há solidariedade e ajuda mútua entre todos, graças a Deus. Falaram-me também do “mutirão”, graças ao qual ficou pronta a capela que daqui a pouco vou benzer. É sempre lindo e importante que as pessoas todas se unam, se deem as mãos, somem esforços e, juntas, consigam o que sozinhas não podem alcançar. Regozijo-me com quantos, direta ou indiretamente, na área desta favela, conseguiram resolver, de modo justo e pacífico, questões que, arrumadas, não deixarão de contribuir para fazer a vida de todos mais inumana e para tornar esta cidade maravilhosa sempre mais cidade de irmãos.  Vim aqui, não por curiosidade, mas porque amo vocês e lhes quero bem e desejaria dizer, com São Paulo: “Pela afeição que sentíamos por vós, desejávamos compartilhar convosco, não só o Evangelho, mas a própria vida”(cf. 1Ts 2,8). Junto com vocês, com um “coração puro” de maus sentimentos, quereria dizer sempre não à indiferença, ao desinteresse, e a todas as formas de desamor; e sim à solidariedade, à fraternidade e ao amor porque “Deus é amor”(1Jo 4,16). E assim, saúdo vocês, as suas famílias, em especial os jovens e crianças, e a todos aqui do Vidigal, dizendo que penso e rezo por vocês, para a divina Providência ser secundada pelas providências humanas, para que vocês melhorem sua vida.  E agora, vou abençoar a todos.” (http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/july/documents/hf_jp-ii_spe_19800702_vidigal-brasile.html, último acesso em 3 de julho de 2020)

         Dom Eugênio Sales desde que chegou ao Rio de Janeiro colocou como centro de sua ação pastoral o cuidado com as vocações e o aumento do número de ordenações sacerdotais. O Seminário São José foi a menina de seus olhos. Quando o Papa São João Paulo II ordenou novos sacerdotes no Maracanã, nessa mesma visita há 40 anos, ele pediu um especial incremento para as vocações sacerdotais: “Daqui se compreende também o quanto deva ser caro ao coração de cada um de nós o problema das vocações. A este campo exortamo-vos a consagrar as primeiras e mais desveladas preocupações do vosso ministério. É um problema da Igreja (cf. Optatam Totius, 2). É um problema importante entre todos. Dele depende a certeza do futuro religioso da vossa pátria. Poderão talvez desanimar-vos as dificuldades reais em fazer chegar ao mundo jovem o convite da Igreja. Mas tende confiança! Também a juventude do nosso tempo sente poderosamente a atração para as alturas, para as coisas árduas, para os grandes ideais. Não vos iludais que a perspectiva de um Sacerdócio menos austero nas suas exigências de sacrifício e de renúncia – como, por exemplo, na disciplina do celibato eclesiástico – possa aumentar o número daqueles que pretendem comprometer-se no seguimento de Cristo. Pelo contrário. É antes uma mentalidade de Fé vigorosa e consciente que falsa e se fez necessário criar em nossas comunidades. Ali onde o sacrifício cotidiano mantém desperto o ideai evangélico e eleva a alto nível o amor de Deus, as vocações continuam a ser numerosas. Confirma-o a situação religiosa do mundo. Os países onde a Igreja é perseguida são, paradoxalmente, aqueles em que as vocações florescem mais, algumas vezes até em abundância.” (https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19800702_priests-brazil.html, último acesso em 03 de julho de 2020).

O Cardeal Sales levou ao pé da letra a sua preocupação com as vocações sendo o Bispo Diocesano que mais padres ordenou para a Igreja do Rio de Janeiro. Esta preocupação dele com as vocações agora nos impulsiona a inaugurar uma Associação de Fundo Vocacional Cardeal Sales para ajudar na manutenção dos nossos estudantes de pós-graduação.

         São muitas as bênçãos e trabalhos do longo e profícuo ministério do Cardeal Eugenio Araujo Sales como Arcebispo do Rio de Janeiro. Que a sua inspiração e o seu amor aos sacerdotes, consagrados, religiosos e seminaristas nos inspirem a continuar este bonito caminho missionário de rezar e efetivamente prover o Seminário São José (que também necessita de seus auxílios) de santas e preciosas vocações para o ministério sacerdotal. Do céu nos ajude o Cardeal Sales e que interceda junto de Deus por este bom propósito que foi uma das suas metas enquanto peregrinou neste mundo.

         Que a alma do Cardeal Eugenio de Araujo Sales, pela misericórdia de Deus, descanse em paz, Amém!

 

 

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