Amar a Deus e ao próximo

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Dom José Gislon
Bispo de Caxias do Sul

Neste último domingo do mês de outubro, Mês Missionário, colocamos diante do Deus da vida, do tempo e da história, os missionários e missionárias que trabalham nas comunidades e nas mais variadas realidades do mundo, para que a Palavra de Deus possa ser conhecida e acolhida nos corações das pessoas, transforme vidas e forme comunidades de fé, onde o amor a Deus seja manifestado de forma visível no amor ao próximo. Que as nossas ações do dia a dia dêem testemunho da nossa fé na realidade onde vivemos, e despertem o elam missionário no coração dos jovens, para que a mensagem do Evangelho permaneça viva e possa ser transmitida às futuras gerações, que continuarão transmitindo a história do amor de Deus pela humanidade.

Podemos cair na tentação de achar que o amor a Deus consiste somente na observância da Lei, mas o Senhor Jesus nos ensina que devemos ir além, isto é, o amor a Deus deve envolver toda a pessoa: o coração, a alma e a mente. O Senhor Jesus (Mt 22,34-40) afirma que o segundo mandamento, aquele de amar o próximo, é semelhante ao primeiro. Ele ousa ligar os dois preceitos, colocando-os sobre o mesmo patamar, porque é o segundo mandamento que torna visível e dá autenticidade ao primeiro. A síntese da Lei é a caridade, que parte de Deus e a Ele retorna, através do amor para com os nossos irmãos e irmãs.

A centralidade do Amor a Deus e ao próximo sempre foi um tema central na tradição Bíblica. Jesus recorda aos seus interlocutores alguns textos já indicados no Antigo Testamento, tais como Dt 6,5, que diz: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito” e Lv 19,18, que diz: “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo”, e os coloca na condição de árvore central do jardim da Nova Aliança.

Ter disponibilidade interior para percorrer o caminho do amor a Deus e ao próximo deveria fazer parte do itinerário de formação espiritual de todo cristão. Sem isso, ficamos fechados num amor a Deus que pode nos levar a um distanciamento da realidade da vida dos irmãos, onde o amor a Deus deve frutificar através da caridade e das obras do bem. O Papa Francisco, na carta encíclica Fratelli Tutti, nos recorda que “o bem, como aliás, o amor, a justiça e a solidariedade, não se alcança duma vez para sempre; mas devem ser conquistados a cada dia. Não é possível contentar-se com o que já se obteve no passado nem instalar-se e desfrutar, como se esta situação nos levasse a ignorar que muitos dos nossos irmãos ainda sofrem situações de injustiça que nos interpelam a todos”.

O Papa Francisco, na mesma carta encíclica, nos recorda que “os conflitos locais e o desinteresse pelo bem comum, são instrumentalizados pela economia global para impor um modelo cultural único. Esta cultura unifica o mundo, mas divide as pessoas e as nações, porque ‘a sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos’”. Encontramo-nos mais sozinhos do que nunca neste mundo massificado, que privilegia os interesses individuais e debilita a dimensão comunitária e fraterna da existência humana.

Portanto, na ótica de Jesus não é possível servir a Deus sem servir ao irmão, sobretudo aquele que padece “as dores e as angústias, as alegrias e as esperanças” (Gaudium et Spes, 1) dos contratempos e provações da vida. Nesse contexto, podemos dizer que o termômetro do amor a Deus se identifica no amor ao próximo, como valor absoluto. Nesses pequenos aspectos estão resumidos todos os ensinamentos da Bíblia, desde os patriarcas e profetas até Jesus e seus Apóstolos.

 

 

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