A visita de Jesus

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DOM ALBERTO TAVEIRA CORRÊA
Arcebispo de Belém do Pará

Durante os dias do que chamamos “Quadra Nazarena”, duas semanas intensas de pregação da Palavra de Deus e grandes celebrações, mais uma vez a cidade de Belém se fez pequena para as grandes multidões que se estenderam generosas pelas suas ruas e praças. Uma sucessão de romarias e procissões. Impressionou-me de novo o fenômeno das ruas repletas de gente. Os municípios que fazem parte de nossa Arquidiocese foram todos visitados, e a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, ícone de nossa devoção mariana, suscitava mãos estendidas, olhares de um brilho indescritível, lágrimas de emoção, exultação, arrependimento, esperança! Este é o nosso povo maravilhoso, digno de toda a atenção e dedicação de todas as pessoas que contribuíram para a realização de mais um Círio de Nazaré.

As cidades e Jesus! Por diversas vezes as multidões acorrem a Jesus, para ouvir suas palavras e serem tocadas pela sua presença salvadora. Nasceu em Belém, e o Evangelho fala do povaréu que ali se encontrava. Nazaré foi o povoado em que Jesus cresceu e trabalhou, na linda experiência da família. A Jerusalém, como não podia deixar de ser, dirigiu-se algumas vezes, até a visita definitiva, para a morte e ressurreição. Em Cafarnaum Jesus fez pouso, pois tudo indica que ali tenha vivido um período. Cidades ao redor do Lago de Genesaré ouviram sua pregação, viram seus milagres e se fecharam à mensagem. E, assim por diante, muitas pessoas e lugares experimentaram sua presença e foram tocadas por ele com a boa nova do Evangelho.

Há uma cidade, notável pela sua antiguidade, por onde entraram Josué e o povo de Deus, após a saga dos anos de deserto, chamada Jericó, algumas vezes visitada por Jesus. Sua fama não era das melhores, tanto que a parábola do Bom Samaritano acenava a um caminho perigoso, passando pelo deserto de Judá, para ali chegar. Em Jericó Jesus encontrou Zaqueu, o cobrador de impostos. Em Jericó aconteceu o encontro com a simpática figura de Bartimeu, filho de Timeu (Mc 10,46-52). Uma figura “urbana”, pobre e mais do que pobre, mendigo, cego e de uma cidade cuja fama deixava a desejar, sentado à beira do caminho, como tantas vozes suplicantes de todos os tempos. Jesus caminhava com seus discípulos, ao longo do Rio Jordão, e os ensinava. Entretanto, a figura mais evidente veio a ser Bartimeu, na cidade de Jericó. Torna-se modelo do discípulo, e segue Jesus pelo caminho.

Jesus foi a grande oportunidade de sua vida. Se os cegos costumam escutar bem, naquele dia apurou mais os ouvidos. Mesmo no meio das trevas, identifica as esperanças que nele se acendem e grita pela piedade daquele que clama como Filho de Davi. A turma do “deixa disso” quer impedi-lo, mas discípulo que se preze clama pelo Senhor, do mais profundo do abismo! Até hoje, muitas são as vozes que querem impedir-nos a aproximação de Jesus. Junto com Bartimeu, não é possível desperdiçar a oportunidade para ver Jesus! No seu caso, lançou fora o manto, despojou-se de tudo para estar com o Senhor. Depois, deu um salto, deixando tudo para trás. E Jesus, segundo narrativa semelhante (Cf. Lc 18,40), chamou o cego à parte, dando-lhe atenção especial! É que Deus nos descobre e valoriza no meio da multidão!

Há outras tantas multidões em nossas cidades, e as vozes contrastantes podem dificultar a aproximação do Senhor. Aqueles que buscam Jesus podem ser criticados. É possível até que muitos considerem inconsistentes as multidões que, conduzidas pelas mãos de Nossa Senhora de Nazaré, cantam, rezam, suplicam, aplaudem! No entanto, aí está uma raiz de forte devoção e abertura para Deus!

A cidade e suas multidões clamam pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, esperam sua graça e sua salvação. Entre nós, há bairros ou regiões cuja fama se tornou negativa, pela violência e pelos crimes praticados. Entretanto, sabemos que Deus tem, em todos os bairros ou ambientes, um povo escolhido, no qual somos encontrados e chamados a responder aos seus apelos. Nenhum lugar seja considerado proibitivo para a chegada do Evangelho, assim como todas as gerações e idades sejam tocadas com a boa nova da vida e da paz!

Não haja cidade, casa ou coração que se feche a Jesus Cristo e à sua Palavra. Devemos imitar a atitude de Bartimeu, sua oração perseverante e sua fortaleza, para que o ambiente adverso não nos leve ao desânimo. Todos nós nos encontramos nas multidões que enchem nossas ruas e praças durante estes dias, e somos conhecidos pelo nome. Somos muito mais do que eleitores ou cidadãos e cidadãs. Somos filhos e filhas de Deus. A história de Bartimeu é nossa própria história, pois também estamos cegos para muitas coisas, e Jesus está passando pela Jericó de nossas vidas. Que ele seja sempre a luz que nos liberta da cegueira, para que o sigamos pelo caminho.

Se ampliarmos o nosso olhar, este é o momento adequado para alargá-lo a todas as cidades e povoamentos que compõem nosso Estado e nosso País, em tempos de crise profunda, quando decisões tomadas pelos eleitores determinarão muito do futuro de nosso povo, especialmente dos mais pobres e sofridos! Quais cegos à beira do caminho, desejamos ir ao encontro de Jesus, pedindo-lhe as luzes do Espírito Santo para as decisões a serem tomadas. “Mestre, que eu veja”! Seja esta a oração simples e fervorosa, a ser repetida todas as vezes em que a vida nos apresenta situações que não sabemos resolver.

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