A caridade cristã

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Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

 

Caros amigos, no último domingo (18/11) celebramos o II Dia Mundial do Pobre, uma ação da Igreja em favor dos que, desprovidos de condições necessárias para uma vida realmente humana, têm sua dignidade ferida.

A Igreja, sempre atenta aos rumos da vida humana na sociedade, convida seus filhos a saírem de si, olharem ao redor e contemplarem a figura de Cristo em todos os irmãos, principalmente nos que sofrem e são marginalizados.

Em mensagem, o Papa Francisco disse que este dia pretende ser uma pequena resposta aos pobres de todas as categorias e de todo o lugar a fim de alimentar sua esperança e confiança num futuro melhor para si e seus filhos. O Santo Padre, ainda reconheceu que esta é apenas uma pequena gota de água no deserto da pobreza, mas é, ao mesmo tempo, um alerta para toda a humanidade de que é urgente o despertar para solidariedade (cf. Mensagem para o II Dia Mundial dos Pobres)

A Santa Igreja adverte que o cuidado para com os pobres não pode estar limitado a um mero assistencialismo. “Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (Evangelii gaudium, 198). E mais, toda ação caritativa cristã deve ser iluminada pelas palavras de Jesus: “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25,40).

Somos impelidos pelas palavras do Evangelho a sermos ‘bons-samaritanos’ (cf. Lc 10,25-37), que ao verem a precariedade da vida dos irmãos fazem-se próximos, compartilhando não só seus bens materiais, mas a própria humanidade.

É missão de todo povo cristão testemunhar o amor de Deus. Por isso, a Igreja reivindica as obras de caridade como seu dever e direito inalienável e as têm em estima particular. Porém, para que as práticas de caridade estejam acima de qualquer crítica e produzam frutos de libertação, é preciso que respeitem a liberdade e a dignidade da pessoa que recebe o auxílio, cuidando para que não sejam maculadas pela intenção de vantagem pessoal, ou mesmo pelo desejo de dominação (cf. Mt 6,2-4); e que satisfaçam em primeiro lugar as exigências da justiça, afim de que não passe por caridade o que é devido a título de justiça (cf. Apostolicam Actuositatem, 8).

São Gregório Magno ensina em sua Regra Pastoral que “quando damos aos pobres as coisas indispensáveis, não praticamos com eles grande generosidade pessoal, mas lhe devolvemos o que é deles. Mais que cumprir uma obra de misericórdia, saldamos um débito de justiça”.

Importante ainda considerar que a verdadeira prática caritativa tem como finalidade eliminar as causas dos males, não somente os seus efeitos, isto é, todo auxílio deve ser encaminhado de tal maneira que os que recebem, pouco a pouco se libertem da dependência externa e sejam capazes de garantir a própria existência.

A doutrina social da Igreja louva os esforços da humanidade para vencer a pobreza, mas alerta para o perigo das posições ideológicas e dos messianismos que alimentam a ilusão de que se possa suprimir por completo a pobreza deste mundo, o que acontecerá somente na segunda vinda de Cristo (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 183).

Por fim, lembramos as palavras do Papa Francisco: “Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e promoção dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto supõe estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorrê-lo” (Evangelii gaudium, 187). Nossa esperança de um futuro melhor, move-nos, pela fé, à humanidade vivida na caridade.

 

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